Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Notas soltas por conta (6)

Camionagens


É bem verdade que nos habituamos ao super-deluxe e que nos custa desabituar-nos. Numa andança pelo Canadá tive que ir a um local remoto e questionava-me com manifesta apreensão sobre o como chegar lá. Afinal a solução, rapidamente conseguida, nem aventura foi a menos de um reparo muito oportuno que evitou que eu saísse logo no início... e estragasse imediatamente a viagem. Mas vamos por partes: primeiro a solução. Solícitos, no Hotel, remeteram-me para uma estação rodoviária, que até nem era longe. Diga-se, de passagem, que a "net" era já de utilidade, mas ainda olhada com surpresa e ainda pouco facultada, em termos de acesso. Mas, se ainda não era acessível a partir do hotel (hoje é, claro, até com o computador próprio), o tal teminal rodoviário estava já estruturado para me dar resposta.  Escrevia-se o destino e imediatamente saltava para o écran de fósforo (!!!) a indicação dos autocarros (de diversas empresas) que serviam esse destino. Mais uma pequena diligência e tinha nas minhas mãos os horários e os custos e assim meti no bolso do meu empregador uns quantos dólares não gastos, partindo comodamente num Greyhound (foi no Canadá, ou já estarei a baralhar o bus...) e dispensando-me do problemático uso de uma viatura de aluguer. O sistema era bom e confortável, preenchia todo o Canadá e até os Estados Unidos e poderia ajudar a remeter a Vancouver, aqui com mais alguma demora que o uso da espartana AirCanada, quem lá se tivesse sentido bem. Agora o problema: a coisa passava-se à beira de um lago e a estrada servia diversas comunidades que se sucediam ao longo da margem. De uma forma assaz curiosa, a estrada tinha nome, tinha placas toponímicas e... o nome era sempre o mesmo. Além disso, alguém teria definido o centro geográfico da comunidade  e numerado os edifícios como West e East: ou seja, poderia haver no mesmo vilório um 46 East e um 46 West, distanciados de, na melhor das hipóteses, umas boas centenas de metros. Mas pior ainda. Se no sentido em que eu ia, a comunidade A se iniciava no 247 East e iria acabar num 300 e tal West, aí os números passavam de 300 e tal West para, digamos, cento e tal East da próxima comunidade, chamemos-lhe B! E a placa toponímica era sempre a mesma...e um incauto lusitano não dava rapidamente pela necessidade de ir olhando as outras placas, fugidias porque não repetidas, que marcavam o início de cada comunidade. Ou seja, um destino, Lakeshore Drive, 42, poderia corresponder, ao longo de um percurso com 12 comunidades a 24 localizações, duas (uma East e outra West) por cada comunidade. Algo confuso! Mas safou-me o ter notado a inesperada alternância East/West e a oportunidade de, na primeira paragem, perguntar ao condutor "o que era aquilo" e dizer-lhe onde queria sair. Tive sorte: o meu destino era na 5ª povoação da série, quando eu poderia ter saído logo no primeiro Lakeshore Drive, 42 que aparecesse ou então, se o destino fosse anterior à "descoberta do sistema", ter ido parar a um Lakeshore Drive, 42 mais distante que o necessário- e ambos evidentemente maus!

Mas vem esta história canadiana (a seguir virá uma indiana - história, claro) para citar a dificuldade que existe, em Portugal, usando a net em todo o seu poder, para saber como encontrar uma carreira que leve o passageiro para, por exemplo, Peroselo. É que não há sistema! Para cada local, os canadianos de então davam indicações - ou pelo menos pareceu-me isso - para todas as carreiras e operadores. Aqui a questão começa por saber QUAL é o operador  - e isto, em princípio, já resolveria o acesso, permitindo ir, telefonar, netar de qualquer forma. Punha-se Peroselo, desambiguava-se se fosse preciso, ou escrevia-se o código postal aplicável e lá saltava a devida informação. Aqui é o "chacun s'arrange" (como dizia o do "bis"!), cada empresa informa de si e é a busca desconfortável de quem tenha que ir lá sem saber por onde começar. Os saites das próprias Juntas de Freguesia, ou dos estabelecimentos hoteleiros e outras empresas locais que acolhessem clientela forasteira, poderiam ter uma secção - que alguns, embora raros, vão tendo -  significativamente epigrafada de "como chegar aqui". Mas nada, ou quase: o País está voltado para os grandes eixos, para as sedes de concelho principais, para o sistemático uso do automóvel (espero que a "crise" ensine alguma coisa), para a não intercomunicação de informação de operadores e esquece, ou olha de desconfio,  o pobre peão que queira (ou tenha que) viajar à laia dos anos 50 ou 60 do século passado e que tente, desprezivelmente para muitos, chegar a pé. Quem surge no seu auto para fazer uma caminhada - é bem visto; para o antecipa a caminhada e chega caminhando, arrastando a mala, já não é - e até lhe chutam com o aviso do "prepago" por via das dúvidas.

Ponha-se alguma esperança nestas comodidades desejáveis e no futuro (com olhos em Franças e Araganças) e consulte-se o endereço http://www.lojadamobilidade.com . Já é alguma coisa, ainda que centrada no Porto. Mas folgo com isso!

Como saber coisas sobre um saite 

Por vezes interessa, como interessa saber algo sobre um URL. No primeiro caso, de que hoje aqui se trata, visite-se o www.statscrop.com . Mas há mais.

Novo vocabulário nacional

Para quem não goste do Acordo, pode dizer-se que é bem pior que isso. A mensagem é simples e embasbacará muitos cruzadistas: escrever "direitos" com 8 letras, começando por "r" e terminando em "as". Solícitos, alguns senhores democraticamente investidos e troikamente revestidos, saberão logo encontrar a solução na palavra "regalias" e tentar passar essa mensagem ao povo. E o povo que se cuide se vai na esparrela e começa a confundir "direitos" com "regalias". Houve um senhor alemão, aliás poeta,dramaturgo e consciente das coisas deste mundo, de nome Berthold Brecht, que deixou vários avisos pelo caminho. E as técnicas usadas estão, de várias formas denunciadas, nesse e noutros Autores e até na prática dos que, do outro lado, as praticam (passe o pleonasmo): iludir os conceitos, criar inimigos, abafar a memória, semear o medo...antes de usar a chibata. mas há muitas chibatadas sem chibata e sempre com a democracia na boca.

Guiné, Mali  e Botswana

Contava-me meu Pai que, quando da Proclamação da República Portuguesa, 5 de Outubro de 1910 para quem nos queira tirar o tal ainda-destranquilizante e anti-produtivo feriado (o 31 de Janeiro já tinha sido!), era primeiro ministro de Espanha (ou Hespanha, como então se escrevia) um tal Merino. E que um jornal espanhol publicara então um cartune significativo em que Afonso XIII se dirigia ao dito Merino, junto de uma porta, e lhe dizia, segundo a legenda: "Cierra bien  la puerta, Merino, que el mal del vecino es contagioso!".

Calcutá-Hong Kong

O meu amigo X contou-me esta, que pelos vistos ainda pode funcionar em certos trajectos aéreos. Estando ele em Calcutá, por razões comerciais, e tencionando voar para Hong-Kong numa conceituada companhia aérea europeia (a coisa passa-se no fim do século passado), teve o cuidado de combinar com a recepção do hotel a presença de um taxi seguro para o levar ao aeroporto com chegada por volta das 8 da manhã, para tomar o avião que sairia pelas 10 ou mais-ou-menos isso. Tinha anteriormente, e como era norma da época, confirmado o voo com a antecedência prescrita - já que estivera em Calcutá e arredores quase uma semana - indicando o hotel onde estava e dado o telefone de contacto. Tudo nos conformes.

Preparava-se X para fechar as malas e sair do quarto, eis senão quando o telefone toca. Antes das 7 horas. Atende. Em perfeito inglês, uma voz masculina do outro lado do fio diz ser da transportadora aérea e pergunta-lhe se estava de facto a falar com o Sr. X, que tinha confirmado o voo tal e tal para HK às 10 e tal dessa manhã.  X, obviamente, responde que sim. Então a voz masculina, de forma muito clara, diz-lhe que o avião vindo da Europa está com um atraso de pelo menos 2 horas e que, por isso, escusa de estar no aeroporto tão cedo, podendo diferir a sua chegada para 2 horas mais tarde e pedindo desculpa, em nome da companhia, para qualquer inconveniente que tal atraso pudesse causar. X lembrou-se do taxi que marcara, de algumas peças que à chegada vira no aeroporto e que poderia comprar tranquilamente... e decidiu seguir assim mesmo, dentro do programa anterior. Estava a fazer as referidas compras quando, à hora precisa, escuta uma chamada de passageiros para HK, através dos alto-falantes do aeroporto, num voo que lhe pareceu ser o seu. Desaustinado, largou tudo e correu para o quadro de partidas mais próximo e... bem na hora, sem atraso da máquina, era mesmo o dele. Quase sem tempo para as formalidades, que incluíam num aeroporto apinhado e confuso a inspecção de bagagens, a devolução de moeda indiana e a verificação dos passaportes, valeu-lhe no desenrascanço um solícito funcionário das alfândegas indianas que, na placa identificativa, ostentava o mundialmente difundido nome de SILVA e que lhe foi dizendo que o voo estava cheio, mas que - fazendo um rápido bipasse junto dos colegas - lhe permitiu recuperar o tempo e receber o último cartão de voo, antes da chamada da lista de espera. Limpando o suor com quantos lenços tinha, ainda abalado com a surpresa mas feliz com o final feliz, despediu-se do prestável Silva, que com dignidade  recusou alguns dólares como recordação, e entrou no aeroplano - onde aliás iriam decorrer filmagens para uma película que nunca chegou a saber qual fosse. 

Terminadas as prudências habituais da descolagem e enquanto o apinhado avião se divertia com as filmagens, chamou a "chefa" das assistentes e contou-lhe tintim por tintim o ocorrido, pedindo para formular uma reclamação. A senhora, muito claramente, disse-lhe que tomava conta da reclamação mas que muito provavelmente o assunto nunca se esclareceria. E acrescentou: alguém soube do seu contacto e alguém recebeu dinheiro da parte de alguém que estava na lista de espera, pronto a pagar generosamente a sua presença no voo para HK - acrescentando não ser aliás situação incomum naquelas paragens. Mas qual seria a cara de X se as coisas assim não tivessem corrido, já com poucas rupias no bolso, taxi devolvido e reserva de hotel inexistente, ao saber que, por chegada tardia do viajante, o avião havia partido, deixando-o só, com as malas e algumas compras, em pleno aeroporto de Calcutá e numa espera que poderia ir até às 24 horas!.

Acautelem-se pois quanto a tais armadilhas, até porque não será muito fácil terem a sorte de X e encontrarem um Silva auxiliador por essas bandas! E a solução é simples: chamada de retorno e, se não atenderem, ir mesmo à hora anterior, mas deixando tudo preparado para um eventual regresso (p.ex. se a mensagem fosse verdadeira e envolvesse uma demora considerável, como num caso de cancelamento de voo, sem outras alternativas de saída).

"La patria de  Tabucchi"

Não perder a crónica-ponto-de-vista
Editada no Peru, fala de Tabucchi, do poder da literatura e necessariamente de nós. Não perder também o saite. A ele me referirei mais tarde. [##]

Para memória futura = [##]

Como não me sinto vinculado à escapatória da porta das trazeiras para cada afirmação de perspectiva futura que aqui faça, passei a adoptar a sinalefa provisória [##] para marcar (e cumprir) eventuais promessas. A ideia também fica para a quem tal possa convir.


Recuperarei também alguns rascunhos... [##].


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Sábado, 14 de Abril de 2012

Notas soltas poir conta (5)

"Intelligence"

Numa das recentes sarrafuscas que trazem à ribalta o mundo futebolístico (faz jeito, é bem verdade, que enquanto se preocupam com isso não se preocupam - ou preocupam-se menos com outras coisas, na versão portuguesa FFF do feminino e anti-feminista KKK de outros tempos e doutrinas, mas que deixaram alguns saudosos a praguejar pelos cantos)  apareceu a palavra "intelligence" ligada à actividade de uma firma e que logo alguns MCS's se apressaram a traduzir por "inteligência" e mesmo "inteligência empresarial". Surpreende esta tradução, quando certamente outras expressões poderiam ser encontradas para tal objectivo, a mais amena das quais seria provavelmente a de "informações" - até no plural, para frizar um etc implícito. De outra forma, prevalecendo a surpreendente leitura,  teríamos de admitir que CIA literalmente significasse "Agência Central da Inteligência" norte-americana e até em Langley ficariam com fugagem alérgica, só de pensar que os pudessem reconhecer como tal!
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   
Cartões de visita

Conhece-se a história do cartão de visita que, em lugar da profissão do portador, dizia «Ex-passageiro do paquete "Pátria» e, bem assim, a realidade de um cartão que recebi num país afastado, que como profissão ou título preenchia duas linhas inteiras em corpo mais pequeno (nem a extensão de habilitações do simpático setubalense "Finuras") e rematava, no canto inferior esquerdo, com a indicação legível de três números de telefone: "GERAL, e dava o número, "DIRECTO" e dava outro número e "SECRETO", não se esquecendo de dar o terceiro número. Face à recente supressão de prestações que constituíam direitos e quando abusivamente se usa a palavra "reposição" para repor nada do que foi tirado, quando a verdade seria dizer "retorno" ou "recomeço" ou até  "regresso" colocando mesmo um ponto de interrogação e agradecendo ao Senhor Peter Weiss ter sido ele lá de longe que levantou a lebre por coelho, sugere-se que próximos cartões de visita tragam apenas uma palavrinha simples subjacente ao nome do portador: "Espoliado".

A questão  (ou o "back to school")


Começa a entender-se, mas devagar para que se não entenda, que a questão sistémica é a economia e que os "perdulários do Sul" estão a ser sugados, como foram sempre, pela rapaziada do Norte. Se se andasse para trás, reabilitando a memória, poderia perguntar-se quem se abasteceu por aqui de mão-de-obra barata, de preciosas e úteis  matérias primas ao pé da porta, de destruição ou deslocalização de indústrias, de pescas, de agriculturas. Nem sempre vai cair diretamente nos gajos, dirão os ingénuos - mas dêem a volta, num sistema global (ah, o mito da globalização!) de "net-backs", e verão em que bolsos vão cair "os mercados" e os contributos ou tributos que estes exigem a uns e geram para outros. É fácil escrever sobre economia, temos exemplos disso. Como sobre educação. Como (mais erradamente ainda) sobre Direito e Justiça, dois conceitos não necessariamente harmónicos, como se aprende em Filosofia do Direito (a tal cadeira que devia ser dada no primeiro ano de qualquer curso jurídico). Mas se sobre isso é fácil escrever, muito mais difícil é fazer - e aqui é que está o cerne da questão. Que seria do pêssego sem caroço?


O "filósofo" da Praça da Concórdia

Quando o record nacional de ódios acompanha o record nacional de cagaços.


A quimera do ouro


Proliferam as baiúcas da compra e venda de ouro. O G (passo a chamar-lhe o G, em homenagem ao homónimo ponto) diz que se vai legislar sobre o assunto. Quem e onde? Surpreende a frequência do negócio. Surpreende o fluxo de metal que poderá justificar tal afluxo de balcões. Afinal havia tanto? E quanto realmente sai? E para onde vai? Bélgica?

Uma oferta oportuna


Terça-feira, 3 de Abril de 2012

Ricardo ou quando ainda se pensava saber economia

 Mas não se esqueçam do famoso exemplo das relações comerciais entre Portugal e Inglaterra!

Sexta-feira, 23 de Março de 2012

Legislação portuguesa sobre canídeos perigosos ou potencialmente perigosos


  • Decreto-Lei nº 276/2001, de 17 de Outubro
  • Decretos-Leis  nº 312 e 313/2003, de 17 de Outubro
  • Portarias 421 e  422/2004, de 24 de Abril, do Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, sendo revogada a Portaria 1427/2001
  • Decreto-Lei nº 49/2007 de 31 de Agosto
  • Despacho nº10819/2008  de 14 de Abril de 2008, do Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas.

Quinta-feira, 22 de Março de 2012

Notas soltas por conta (4)

Mira Amaral

Pela segunda vez tenho de reconhecer a existência de convergência pontual com o epigrafado: a primeira foi quando tentou reabrir o incómodo "dossier" da Metalurgia do Cobre, para uma valorização doméstica dos  concentrados produzidos nas minas - note-se o plural - do Alentejo. Não conseguiu, mas tentou. A segunda vez foi recente, quando criticou a colocação do "Relatório Porter" na prateleira. De facto haveria que, no terreno, tirar consequências desse documento e elas, na prática, ficaram-se no relatório. Se o mesmo ainda pode ser útil, olhe-se bem para ele - e não apenas nas respectivas conclusões e recomendações objectivas, mas também na sua metodologia.

TGViste-lo: O canto esconso da Europa ou a vitória da Pampilhosa 

Oliveira Martins (refiro-me ao Historiador e não ao Guilherme) tinha razão ao aproximar-nos da Turquia e, pelo que se lê,  o "odiado veículo" poderá chegar primeiro ao Bóstoro! Ou (o que idêntico é) à Romélia, invocada por Eça na mesmíssima carta em que inventou o "Era Lisboa e chovia" [1], já que em Portugal - salvo os mesmo incontornáveis avanços do século e, apesar da seca, continuamos a levar com as "escassas chuvas e as avolumadas secas" que merecemos. Mas tudo será uma questão de tempo e, em havendo tempo, de, então, ainda poder subsistir (ou não) uma qualquer ideia de Europa.

E, mas não ainda mc2

Essa de querer alterar a mercadoria depois da venda faz lembrar a prática de pintar o burro a tintura de iodo antes da feira. Perguntaria Sócrates o Grego, onde estaria o erro: se na Alteração ou na Venda? Ou na definição cronológica destas? E se a utilidade da Alteração fosse já bem conhecida antes da Venda? É de pensar ou é de pagar?

Duas frases chocantes

E que, de certa forma, se aproximam. Uma vem na página 8 do JN de ante-ontem, alegadamente dirigida por uma filha a sua mãe, e vale como demonstração de amor em tempos e terras de cólera: "Só não te mato porque preciso da tua reforma!". A outra é a expressão de uma verdade antiga, recordada num recente colóquio: "Tudo hoje é mercadoria".

Agora França e Síria, Iraque e Afeganistão, ontem Noruega, depois de Nova Iorque, depois de Columbine, depois de Bagdad, depois de fomes, privações e atentados-a-cada-um que também matam, depois de tantos nomes e instituições mal afamados por todos os continentes e todas as épocas, etc. etc.

Vestidos de roupagens sortidas, à paisana ou fardados, em singelo ou a granel, invocando ou não uma razão ou um poder, alegando razões ou acobertando-se com insanidades, com armas ou sem elas, eles continuam a andar por aí. O mal é sempre das vítimas - e da falta de memória dos homens, só retomada por impulsos, caso após caso e tanto mais viva quanto mais cerca estiverem os factos e o medo viver mais perto, a passear na rua, a inundar os merdia, a servir os senhores, a saturar as mentes. Conclui-se que a conhecida frase "homo homini lupus" possa ser - no que dizer pretende - verdadeira, mas não passa de definitivamente insultuosa para com os lobos.
Obs: não é gralha.

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[1] Também não é gralha. Venham divertir-se neste blogue com o que nele foi respeitosamente publicado a 28, 29 e 30 de Abril  de 2008. Grand' Eça! 

Sábado, 10 de Março de 2012

Uum! Tempos destes só a ratos aproveitam...



Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Pensamento do dia, sobretudo dedicado a quem não goste


Utilizar a crise para transformar uma visão facciosa da economia num facto inquestionável é oportunismo ideológico obtuso.

Fintan O'Toole
em artigo publicado no "The Irish Times" de Dublin, 2012.03.06

A Ler:
http://www.presseurop.eu/pt/content/article/1591051-o-keynesianismo-sera-agora-crime-de-pensamento
.

Terça-feira, 6 de Março de 2012

Notas soltas por conta (3)


De Malinowski, sobre as normas consuetudinárias

"Em tudo isto, há-de reparar-se, existem forças psicológicas não de inclinação, ou de interesse pessoal,  ou mesmo de inércia, que poderiam contrapor-se a uma daquelas regras ou tornar difícil acatá-las. É tão fácil acatar uma regra como não o fazer e, uma vez que vos dedicais a um desporto, ou a outra actividade agradável, só o podereis gozar realmente  se obedecerdes a todas as suas regras, sejam artísticas, de boas maneiras ou do jogo."           
[Tirado ao acaso]  

"Pagar la perrona!"           

Quando, menino e moço, andei pelas Astúrias contavam-me que, no antes de 1934 que foi antes do 1936, as adegas de cidra eram abertas a quem quisesse ali matar a sede. Entrava-se e bebia-se livremente. Mas a cidra é diurética e, obviamente, acabava por produzir os seus efeitos. Por isso quando um bebedor, de bexiga apertada, queria sair para urgentemente aliviar-se ... era então que se lhe exigia, em numerário, que - para que franqueada a saída fosse - ficasse paga a presença e o consumo. Daí a expressão e daí também alguma semelhança com o que alguns senhores pretendem fazer ao que ainda faz sombra à folha de couve verde daqueles "trustees" ou "trastalhões"!

[Não tirado ao acaso] 

Ao menos tijolem  janelas e portas   

Falou-se já aqui de uma estação de CF devastada por vândalos em busca de metal vermelho, onde quer que houvesse. Mas há mais e também com algo a ver com os CF, já que o edifício que merece este comentário - com alguma dignidade hoje mal reconhecida e irreconhecível - se ergue junto ao anterior bairro ferroviário, bem no centro da nossa cidade e se chama de "O Palácio do Coimbra" (Há outro em Lisboa, também assim chamado, para os lados de Santa Apolónia - e, se os palácios são diferentes e têm diferente apresentação actual, tudo parece indicar que "o Coimbra" tenha sido o mesmo!). Pois bem: terminado um período de utilizações precárias e que em nada ajudaram o imóvel, que tantos e bons usos poderia ter acolhido, este ficou desamparado e só, entregue à protecção efémera de janelas com portadas interiores improvisadas em cartão ou contraplacado e mostrando raquíticos cadeados (para mim "aloquetes") a impor respeito nas portas fechadonas. Mas se as portas assim mesmo resistiram a intrusos, o amor ao tal metal fez com que o desrespeito saltasse para dentro através das janelas - e o processo tornou-se galopante. É caso de pedir: ao menos "tijolem" as janelas e portas - ou, como no precedente caso da estação dos CF's, só irão fazer isso quando já não houver ali algo que se tire ou quando aquilo arda por mor de "desconhecidos" como supostamente sucedeu (e com bis!) no "palacete" dos Braancamp? Oferecem-se algumas fotografias:







A "menina da piscina"


Com grande surpresa e alegria minha o Jornal do Barreiro "ressuscitou" há algum tempo, e bem, a figura da "menina da piscina" , alegre e refrescante representação mural "signée" Rogério Ribeiro que as obras de repintura camarária daquele equipamento municipal do Barreiro há uns bons anos fizeram incompreensivelmente desaparecer.  Mas, apesar de ser obra de quem era e cuja inconfunddível expressão eu admiro, a "menina" desapareceu! Ora quando andei a verear pela Câmara do Barreiro gostosamente subscrevi, com a bancada da "oposição" de que fazia parte, uma proposta para que o desaparecido afresco fosse recuperado -  proposta essa que foi aprovada por unanimidade, como poderão encontrar nas actas se a tal busca se derem. Havia só um problema, como lá foi dito: não existia  qualquer registo da "menina". Para que a unanimidade votada adquirisse título executivo de nada valeu dizer a quem melhor deveria conhecer essas coisas, que olhando bem na Soeiro, encontrar-se-ia no mural da porta, como detalhe a ampliar, se não uma gémea da desaparecida pelo menos uma parecidíssima prima da mesma - e foi assim, por tal faalta, que a desejada e até aprovada reconstituição até este momento se não fez. Ora, pelo apontamento que publicou, o JB teve o mérito notável: de demonstrar que "havia mesmo" e, que diferindo da letra da canção, afinal nem era outra pois que era a foto de si própria! Semanas depois de ler o apontamento do JB e de nele  rever a menina no seu esplendor [1], passeando por aquela marginal que ainda se não recompôs da longa laparatomia a que está submetida, fui até ao local. A parede em que viveu até precisa de pintura. Não será então a oportunidade azada para cumprir a moção aprovada e, por forma responsável trazida por mão capaz de artista, até como homenagem digna ao infelizmente desaparecido Autor, fazer ressurgir essa ridente imagem, merecedora que é de se contrapor a estes tristes dias macambúzios, povoados de macambuziantes e azedos citrinoides?

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[1] Guardei tão bem esse número do JB que não o encontro. Coisas da vida e que dão força a um velho princípio: "há, na vida, duas maneiras de seguramente perder as coisas: uma, a mais certeira, é intentar guardá-las bem, a outra é precisamente não intentar guardá-las bem"! Vou procurá-lo e, com a devida vénia, "chapar" neste blogue a fotografia a que se alude. "Ça ira!"

Aviso

Se virem por aí a passear uma KODAK Easy Share Z 710 de 7,1MP com o nº de série KCXGG65203434 acompanhada por uma FUJI A220 nº 9UT55812 BZ02 de 12,2MP, ambas fotográficas e digitais, digam-lhes, sff, que são minhas. Ignorem eventuais acompanhantes desencaminhadores.

Subsídios para a história da Indústria em Portugal

A quem ao tema se dedique, com o necessário realismo, recomenda-se o artigo de Maria Teresa PATRÍCIO  "A estratégia política e económica do Estado português num pólo de crescimento: O projecto industrial de Sines", Sociologia - Problemas e Práticas, nº 10. 1991: 9-19.

Outras leituras:

VEBLEN, Thorstein "Imperial Germany and The Industrial Revolution", 2003 [1915], Batoche Books, Kitchener.
COMENTÁRIO: Editada [1915]  já durante a 1ªGG mas antes da intervenção dos Estados Unidos no conflito, esta obra parece ser, a todos os títulos, uma primeira e objectiva análise "para olhos e mentes norte-americanas" do avanço e eficácia alemã, em confronto com o posicionamento anglo-saxónico, e ajuda bastante a compreender acontecimentos posteriores e mesmo recentes. Como boa notícia dir-se-á da sua disponibilidade integral na "rede", em:
Continuo a não entender  o aparente desconhecimento do pensamento de VEBLEN deste lado do Atlântico e em particular da sua obra mais representativa "The Theory of the Leisure Class", também disponível na "net" em edição integral. Sobre Veblen veja-se o artigo biográfico (em Inglês) da Wikipedia, com a reserva de nele se considerar o pensamento deste Autor como integrado numa perspectiva anti-marxista (?!) - enquadramento que me parece de rejeitar.


                 

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Notas soltas por conta (2)

Notícias de uma indústria
 
"Esqueleto" em betão da fábrica de poliois e resinas do Lavradio, Barreiro 
(foto que parece ter sido já trazida aqui) [1]
Demolição da chaminé da que foi a Central Eléctrica da EDP no Lavradio (Barreiro)
Desmonte de uma torre de "prilling" [2] da fábrica de amoníaco e ureia do Lavradio, Barreiro


Notícias de um acordo ortográfico malquerido

 Agradeço a Vasco Graça Moura a decisão que tomou, escassos dias após assumir a presidência do CCB, ao suspender o referido acordo no domínio que gere . Recordando as alterações que já experimentei pelo caminho, mercê da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945, e as tíbias modificações posteriores que foram ficando embargadas por razões cisatlânticas ou transatlânticas [3], mantive-me até à data como mero observador, no gozo do período de adaptação legalmente previsto. Haveria pois que optar - e o determinante gesto [4] assim me decidiu - pelo que, a partir de agora, procurarei adotar nos meus escritos a grafia do Acordo Ortográfico de 1990.

Notícias de um assalto

As três fotografias acima estarão entre as últimas que por mim foram captadas com a  FUJI A220 que longamente usei, antes desta ser "cirurgicamente" removida de minha propriedade. A característica relevante que distingue os autores dum tal ato é que estes são dos que "irão mesmo dentro" se apanhados forem. [5]

Por Garzón !

Si! Sin duda!.

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[1] Felizmente que, não longe dos terrenos em que estes monumentos mirram, subsiste um louvável exemplo de Indústria.
[2] Em palavras simples dizer-se-á que o "prilling" é uma operação em que uma fase pastosa é feita gotejar no interior duma torre,  solidificando-se em grânulos por contacto com um caudal gasoso quente que, em contracorrente, sobe.
[3] E que então, ao que eu saiba, não terão levantado tanta pieira como este, talvez porque ao tempo as meninas das tranças pretas ainda andassem a apregoar violetas pelo Chiado (substituídas na primavera-verão por raminhos de "blués").
[4] Reforçado pela elegante qualificação cambronniana que o MEC sobre o mesmo obrou no "Público" de domingo passado - fazendo-me lembrar os jovens profs (eles assim se identificavam) que, em pleno Forum do Barreiro e naquele tempo em que os profs ainda tinham pio, se referiam em voz manifestamente alta  àquilo que, com desdém, chamavam de "Cagalhães".
[5] Para ler "a contrario". Das minhas andanças já longínquas pela Filosofia do Direito (ou  de uma das primeiras aulas de Direito Penal I, já não me recordo bem) guardo a descrição  feita por um dos docentes de um episódio atribuído a Sócrates (o grego). Estava este, como de costume, sentado à porta de sua casa quando, na rua, se desencadeou um grande alarido, com correrias, etc, etc. Sócrates procurou conhecer a causa de tal desassossego e dela alguém o informou dizendo: "Correm atrás de um ladrão!" Como se falasse para si mesmo, no estilo que dele se descreve, o filósofo deixou escapar esta socrática pergunta: "Mas afinal o que é um ladrão?"

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

Notas soltas por conta (1)

O ritmo da vida tem impedido que faça as publicações como deveriam ser. Anoto-as, registo-as, escrevo-as mesmo em pedacitos de papel. Acabo por não as colocar aqui. Vou mudar novamente o sistema - juntando-as todas em pacote e lançando-as de uma só vez. Não fica bem, eu sei, mas o que fica bem hoje?

Hungria e designações:
Sob a epígrafe "Divulgação: O regresso do autoritarismo" o Público de 8 de Janeiro analisa o que se passa na Hungria, num excelente artigo assinado por Luís Miguel Queirós. Dele retiro uma frase de Manuel Loff, aliás posta em destaque: "Omitir a designação de República é uma estratégia típica dos anos 30."  Observação certeira e oportuna quando a moda consiste no logotipo "Governo de Portugal", de bandeira enrolada e, para os que o usam em papel de escrita, em trazer a mesma desenrolada na lapela - modelo "States"...  ou "Sargentão".

A similitude ou dissimilitude das situações que se vivem faz com que alguns nos coloquem nos anos 30, outros em 1913 pre-Serajevo. Nenhuma destas hipóteses prima por  tranquilizadora, digamos mesmo.

Pontapés no cobre(cega-rega):
Temos minério de cobre no Alentejo.
Exportamos o minério.
Outros tiram o cobre do minério.
E vendem-nos o cobre...
Cobre em coisas e cobre para coisas fazer
Vem outros e roubam por aí  as coisas que têm cobre
Sucateiros há que juntam essas coisas
Para que se exportem pelo cobre que contêm
Outros irão tirar tal cobre das sucatas
E vendem-nos o cobre...
Cobre, recobre, o cobre que nos cobre
E que em qualquer passo alguém nos cobra
Ou já cobrou do cobre que tivemos.

Normais & Pobre's
Achei graça ao tom surpreso de um comentador económico da SIC Notícias ao glosar a notícia de nova e malévola rapaziada destes famigerados rateiros - para concluir finalmente, como também o Ilustre Professor, que se estava perante uma guerra acesa entre o Euro e o Dólar. Pessoalmente nunca tive ilusões, desde o início, de que era (e é) isso mesmo. E tanta gente andou para aí (e anda ainda) a vender o contributo socrático para tal crise como se fosse privativa do nosso lusitano espaço e dele partisse para contaminar um continente. De uma determinada corporação foram só 100 000 à rua por muito menos do que os mantém agora caladinhos na toca ou quase. Não se iludam: os "mercados" só se acalmarão quando a tal Europa deixar de apenas rosnar e decidir finalmente passar à acção se para isso se encontrar com pomos de oiro ou quando o Euro passar tristemente à História. E se for este o malfadado caminho, concluir-se-á então, sobre as cinzas de um sonho tornado inferno, que fizeram à Europa o mesmo que Júpiter lhe foi mitologicamente fazendo, disfarçado de touro - quando o monte Olimpo,  grego sem austeridades, era sobretudo reinadio. E aí até com eventuais aquiescências, ou nos termos das crónicas cor-de-rosa do hoje em dia, que até já ganharam espaço permanente no JN, com "muita cumplicidade".

Nomeações
"Nada de novo na frente ocidental" é um excelente livro de Erich Maria Remarques. O meu exemplar está marcado pelas moscas.

Terceira idade
Do "Diagnóstico Social da Cidade do Barreiro (2009)", disponível a partir do "saite" da Câmara Municipal, recolhi uma citação de Virgínia Woolf: "Há uma idade na vida em que os anos passam demasiadamente depressa e os dias são uma eternidade."  Que nunca o possas vir a sentir, longe que disso ainda  estás - pensei para comigo fazendo figas. Ambos os rins se manifestaram solidários - prometendo funcionar bem para tranquilidade conjunta.

Mais um livro sobre o momento do volfrâmio...

... e o curioso é que me recordo de, no lançamento (1946),  ver cheia dele a montra da Livraria Latina, onde estava o Senhor Alberto, amigo de meu Pai, livraria (e neste caso editora)  que ficava no início da rua de Santa Catarina, mesmo ao cimo da "31 de Janeiro" (então pudicamente retomada como "Santo António" pelo regime). Do Autor (1912 - 1966), um neo-realista natural de Monchique, conhecia já dois outros títulos sobre mineiros ("Mineiros" e "Histórias de Mineiros").

Domingo, 8 de Janeiro de 2012

A atração da marca

Imagem: cortesia ao Blogista, claro.

Sábado, 7 de Janeiro de 2012

O fechar do ciclo de Natal 2011-2012



Creio que já disse por aqui que começávamos o ciclo de Natal na Casa Grande de Gaia, que já não existe, com a limpeza da chaminé, a vinda dos limpa-chaminés enfarruscados de "A Fuligem" raspando a conduta com ramos de carqueja logo após o dia de Todos os Santos e da deposição respeitosa dos crisântemos  naquela extensão da casa familiar que ficava (e está) no Repouso para os que tinham partido. Nas festas era muita gente junta, metiam-se as tábuas centrais na mesa que custava sempre a abrir, e quase todos os convivas de então também se foram. A árvore era enorme, a sala decorada, o presépio só recebia o Menino na noite de 24 para 25. A meio do corredor, junto ao vão das escadas, a salamandra soprava calor.  O encanto acabava nos Reis. No dia seguinte, que era o de hoje, os adornos de Natal voltavam às caixas de cartão que se fechavam na cómoda ou na arca que o Tio António mandara de Moçambique, o ritmo voltava, os dias já cresciam,   - nem se dava por isso - o frio soprava do Norte, chegava dias depois o "ele é nosso e não é do abade" das rusgas (os "da Rasa" e os "Mareantes do Rio Douro") que, em fatos e cabeleiras do sec. XVIII, traziam o S.Gonçalo , para nos lembrar com vigoroso zabumbar que estávamos já num novo ano, aberto a todas as esperanças possíveis - incluindo o desejo que a Paz voltasse ao mundo ou que se mantivesse. Os tempos mudaram.  Fecho hoje o meu Presépio na minha mesa, muito mais pequenino, entre computadores insonhados então. Não me custa fazê-lo só, no meio dos livros que durante uma vida fui acarretando. Passam por aqui memórias de palmeiras, de heras, de pessoas e momentos. A diáspora familiar recomeçou. O caminho já vai na geração dos bisnetos, plantei árvores - algumas tropicais, dei duas voltas ao Mundo para ver se o Julio Verne se tinha enganado e se o Philleas Fogg contara mesmo um dia a mais, escrevi mesmo um livro com saudades de uma terra em que não vivi mas que marcou o meu imaginário. Voltam sombras a uma Europa que parece sofrer de esquecimento. E eu pergunto-me: quantas vezes fecharei mais o presépio numa caixa muito mais pequenina? Ou não o vou fechar nunca mais, deixando-o ficar nesta mesa numa atitude de rebeldia serôdia,  até porque já que se ouviu dizer que o Natal pode ser quanto o Homem quiser? E, afinal, talvez seja assim - e que, entretanto, a austeridade com que os que mandam sempre nos foram espezinhando (e quanto possível espoliando), então como agora, se vá cozer.  No tempo.

Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

Do comércio, em dia de Reis

Ante-ontem a conversa geral era sobre supermercados, ontem começava a falar-se de lojas. E digam lá se a distribuição e o comércio a retalho não ocupam uma quota importante na actual preocupação dos media deste País? Lol!

Três conclusões:
a) atenção aos desvios de atenções em "tempos de crises" (ou "com papas e bolos - e não necessariamente alimentícios - se enganam os tolos e os que permanecem "adormecidos" até os virem buscar - Brecht dixit  e Omar Kayan também dixit);
b) atenção às raízes de intolerância e à tendência quase pandémica para a afectação de liberdades pela criação de "suspeitos" (e quando qualquer sociedade religiosa ou política ou mesmo de organização profissional  era, no seu início, uma "sociedade secreta", Cristanismo, sindicalismo, mesteres e até "sociedades anónimas" incluídos?);
c) (corolário da anterior) atenção aos "papões na História", sejam de que lado sejam!

Eu sou orgulhosamente sócio do Futebol Clube do Porto, leitor do "Jornal de Notícias, apreciador de "francesinhas" (na corrente do "criador" mestre Daniel Silva, cuja loja, na "Regaleira", rua do Bonjardim frequentei a desoras quando estudante), de tripas e de b'roa de Avintes, esperantista também, e já  declarei a primeira qualidade, quando Vereador da oposição (da oposição que continuo a ser), numa sessão de Câmara local, como ficou registado pela imprensa. Admiro mulheres bonitas, jovens e sobretudo interessantes, o que  - "interessante" - é já um conceito difuso e por vezes secreto. Fumei cachimbo e pertenci a uma associação inorgânica de fumadores de cachimbo locais, o "Piper's Club", que organizava torneios de duração. E bem mais coisas. Mas quando pelo telefone me perguntam quem é o meu fornecedor da TV por cabo eu digo: isso são elementos do foro relacional que não revelo. E quando me perguntam, com certos objectivos e em certos meios, qual é a minha Igreja eu estou sempre disposto a responder como, para provocar quem  o provocava, respondia  aquele estudante americano em ambiente religiosamente agressivo: "Gótica!" . Um caso pode ser um caso, em qualquer sociedade ou forma orgânica ou inorgânica de associação de interesses ou de preferências que sempre criam afinidades - mas nunca se ultrapassem os limites disso e se avance cegamente com "carimbos" fundamentalistas e com a intrusão cega nos direitos fundamentais (nem com a indulgência para deveres fundamentais), mantendo o tal "sal na comida" de que falava um conhecido bispo no sec. XIX. Todo o exagero é uma porta aberta para as perseguições que possam vir depois: não está historicamente longe o Arbeit macht Frei!

AVISO: O bloguista informa que nada tem a ver com pop-ups ou outros apêndices de carácter publicitário que surjam permanente ou transitoriamente no topo de página inicial do seu blogue ou em qualquer outra parte deste, actualmente em nome de "Let's qualquer coisa", "V. ganhou isto ou aquilo", "Clica aqui ou ali" ou outro qualquer teor similar de tipo expositivo ou competitivo. Tratam-se de "colagens" abusivas de que não teve qualquer aviso prévio, sobre cujo conteúdo visível ou invisível declina qualquer respomsabilidade, das quais não aufere qualquer lucro e/ou às quais não deu qualquer acordo ou  considera manifestar qualquer interesse. A "entrada" nesses jogos ou questões estranhas ao blogue e as respectivas consequências recaiem inteiramente sobre quem as use.

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Lá vamos nós dar ao mesmo...


No JN de ontem, 4 de Janeiro, a  pag. 6, o Sudirector Jorge Fiel relatava discretamente em "Bússula" um "Almoço com Durão no Tivoli". Desse cuidado relato retiro, com a devida vénia, que o presidente da Comissão Europeia  "está optimista e crítico das Cassandras e do "intelectual glamour of pessimism","

Mas retiro algo mais de uma outra frase, com esta intimamente relacionada: "Atribui o pessimismo dominante ao controlo de 95% do mercado da informação pelos anglo-saxónicos  (que não são entusiastas do euro). O resto vai atrás, contagiado. Em termos de comunicação, a Alemanha vale cem vezes menos que o Finantial Times, Economist e Wall Street Journal juntos".

E acrescento eu: Ai! O incómodo Euro (ou o incómodo do Euro!) revisitado! As comichões que causa no "Empire"!!!

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

"Efemérides e não só" ou "idade e múltiplos e 9"

Algures no ano passado, e que vai ainda por perto, durante uma conversa amena numa das salas da UTIB, alguém deixou cair esta simples informação "Olhem que eu hoje faço XY anos", para receber de minha parte a curiosa mas inesperada resposta de "Parabéns! E parabéns de quem, como eu, tem hoje YX anos.", sendo X e Y diferentes de zero e diferentes entre si.

Dias depois (é curioso como certos acontecimentos se repetem surpreendentemente quando anos a fio andaram arredados!), tomando um café com pessoa amiga, concluímos ambos que em 2012 as nossas idades trocariam de dígitos, ou seja, que um faria AB anos e o outro BA, sendo A e B diferentes de zero e diferentes entre si.

Achei que o tema tinha alguma piada... e concluí o seguinte (deixando a demonstração, que é muito simples, para quem a queira fazer):

1. Em pessoas com idades diferentes representadas por números de dois dígitos (i.e do tipo XY ou AB ou, o que é o mesmo se situem entre os 10 e os 99 anos) só são possíveis "trocas" de algarismos como as referidas, quando a diferença de idades fôr de N anos, sendo N um múltiplo de 9 (i.e. N = 9 x K, com K numero inteiro, entre 1 e 8).

2. Para qualquer outra diferença de idades, que não seja múltiplo de 9, nunca ocorrerá a "troca" dos dois dígitos.

3. O número de casos para cada N possível é de 9 - K (com K entre 1 e 8)

Casos possíveis: 

Para N = 9 ou seja K = 1: 12 e 21; 23 e 32; 34 e 43; 45 e 54; 56 e 65; 67 e 76; 78 e 87; 89 e 98 = 8 casos

Para N =18 ou seja K = 2: 13 e 31; 24 e 42; 35 e 53; 46 e 64; 57 e 75; 68 e 86; 79 e 97 = 7 casos

Para N =27 ou seja K = 3: 14 e 41; 25 e 52; 36 e 63; 47 e 74; 58 e 85; 69 e 96 = 6 casos

Para N =36 ou seja K = 4: 15 e 51; 26 e 62; 37 e 73; 48 e 84; 59 e 95 = 5 casos

Para N =45 ou seja K = 5: 16 e 61; 27 e 72; 38 e 83; 49 e 94 = 4 casos

Para N =54 ou seja K = 6: 17 e 71; 28 e 82; 39 e 93 = 3 casos

Para N =63 ou seja K = 7: 18 e 81; 29 e 92 = 2 casos

Para N =72 ou seja K = 8: 19 e 91 = 1 caso

Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

Quando o erro técnico é intencional...

... vai novamente cair-se na mentira, mesmo que política.

 Hyeronimus BOSCH, "O Prestidigitador" - ou "O que está fazendo o senhor de óculos, último à esquerda?"

E enquanto o País debate a constitucionalidade das medidas e, no doméstico Belém-da pétrea-mastaba, o lava-mãos de prata (ou de cobre, que é o que está na moda e no goto dos "pilhas" urbanos) antecipa-se  rapidamente 33 anos ao Menino do presépio, a real politik do paga-o-que-deves-e-nem-sabes-bem-a-quem  traz à baila a distorção de vários conceitos e o esquecimento de outros rigores.

Para já o valor da leitura constitucional. Li um recente texto em que o ilustre Provedor de Justiça põe com justeza alguns pontos nos ii enquanto outros pontos tentam por aqui colocá-los nos yy. Alguns desses pontos são por demais evidentes e escondem-se no exercício actualista do texto constitucional. Embora quando me debrucei crente e piedoso sobre  textos constitucionais me tivesse sentido profundamente afim da Constituição Jacobina, que deve ter sido uma das melhores constituições francesas porque logo que acabada foi encerrada numa urna de bronze e dela nada mais se disse quanto a efeitos, nunca deixei de admirar a simplicidade da constituição americana, por vezes retorcida pelos "amendments",  face a uma construção galicista, cheia de conteúdos doutrinários muito respeitáveis e de pormenorizações demasiadamente extensas que se podem virar contra os direitos que se supunham por elas defendidos e que trazem consigo, frequentemente, outros tantos alçapões para os que os queiram usar. E, por isso, o que estamos a ver pode chocar-me mas não me admira: "qualquer ferramenta pode servir de arma, só é preciso saber pegar-lhe" - e é exactamente isso o que estamos a assistir, com uma Constituição pragmatica e pontualmente como que suspensa sem que tal se diga. Vejamos ao que leva o movimento de invocação constitucional em curso. Dentro de gerações será um "caso histórico" que terá e trará nomes (e responsabilidades) associados. Mas, como dizia Keynes para poder desprezar uma segunda parcela, então estaremos por certo todos mortos. E no "salvemo-nos como pudermos" que nos é apresentado, sempre com o velho látego da austeridade que parece  derivar de mortificações pias (os Olimpos eram sem dúvida mais gozadões, "malgrès tout!"), encontrará o Poder e o Capital anónimo, este ávido, imoral e eficaz na sua desenfreada busca da especulação e crescimento,  todas as justitficações para espezinhar o mexilhão que é o que sempre sofre quando o mar bate na rocha. A conjugação é simples: deve-se = ele deve, ele tem (pouco que seja) = há pois que sacá-lo. 

Outra falácia corrente é o desmoronar evidente da consideração do imposto como uma relação contratual. Mais ou menos nesse tempo em que eu lia constituições sortidas e o livro do Professor Martinez - e ele sabia dessas coisas pois andara por lá na companhia do sempiterno "in dubio pro fisco" - ai de quem pusesse em causa essa interpretação. Havia então um senhor alemão - aliás insuspeito por algumas das  suas suspeitas relações -  que, em palavras breves, defendera que o imposto não passava de um esbulho - o que, na prática,  permitia antecipar no seu tempo a crítica ao "paye" (pay as you earn) como "anestesia" que evitava tirar do bolso o que no bolso tinha entrado e isso  porque, por dedução imediata, nem no bolso do "sujeito passivo" chegava a entrar. Cristalizada precisamente nessa expressão já de si clara de "sujeito passivo" que pressupõe o "toma, paga e não pies" (ou o "paga primeiro e pia depois!") era a chegada ao reino do "faz de conta" e sempre em prejuízo do bolso - mas, como se sabe aqui, nem sempre todos os bolsos são iguais. É que há bolsos e bolsos, senhores - como diria mestre Gil ou alguns pragmáticos analistas das  lisboetas  linhas 15 e 28. Mas ai de quem então adoptasse essa visão rapinante da relação tributária, contra a apregoada e aceite "relação contratual", que trazia uma unção honorífica à respeitabilidade do legislador fiscal. Está hoje a ver-se!!! Defendia-se na mencionada entrevista do Senhor Provedor da Justiça que um dos pilares da relação do cidadão com o Estado reside na palavra e no sentimento de confiança. Onde está hoje isso? Mas continuam a existir bolsos e bolsos: alguns tão alargados no fato europeu que se caseiam do abrir aqui ao fechar entre tulipas ou em "paraísos" em que a salvação, no limitado abrir de braços dos crucifixos jansenistas que por aí abundam, não é certamente para todos.

Finalmente -. e na construção clássica de uma sinfonia exige-se agora o terceiro andamento - a maleabilidade da qualificação técnica. Nas troikolentas obrigações que nos invadem depois das cornucópias da fortuna com com que os mesmos vieram corromper os outros mesmos (semear para colher, meus filhos, semear para colher - tudo é uma questão de tempo!) e que têm efeitos mais que duvidosos (cala-te boca, pois se vamos para a "teoria da conspiração", que inexoravelmente aponta para a nota verde pelas mais ínvias trajectórias e para uns "ignotos e anónimos mercados" que bem parece que só se "acalmarão" no triunfo daquela sobre outra perturbadora divisa, €' claro, não mais sairemos daqui e daí a bocado resvalaremos tanto para o Hardt & Negri discretamente já trazidos supra mas que surpreendentemente ninguém vem invocar agora - como para a obra mais lusitana e doméstica, e portanto valiosa, de Penim Redondo que valeria a pena reler, numa de antecipação à tal visão actualista que tem muito a ver com isto tudo), foram-nos impostas medidas no campo da receita e no campo da despesa. O pausado Senhor das Finanças procurou o denominador comum e, pelos vistos, conseguiu-o: nas receitas aumentar os impostos ou seja entrar nos tais bolsos, nas despesas fazer com que se reduza o que entre nos tais bolsos e ainda por cima de forma desigual e que levanta dúvidas constitucionais. É o "paye avant le paye", ou seja, é a gadanha da receita a atacar pela frente e a mesma gadanha recoberta  agora pelo véu da ficção e do devido não-pago (e porque assume que o não-pago não é devido) a atacar pelas costas. Ora o dito Senhor não pode passar indiferente à opinião de tantos fiscalistas, e de vários quadrantes, que por aqui já se pronunciaram: esta mobilização de vencimentos devidos é um IMPOSTO. E se é um IMPOSTO é algo que se insere na coluna da receita e não da despesa e inseri-lo na DESPESA é não só uma impostura como uma evidente e indesculpável falácia em termos de rigor. Espero que isto não passe despercebido ao Eurostat e à sua oportuna leitura das contas do Estado ou então, dos Prazeres à Rua da Alfândega e desta a Belém e de Belém aos burocratas de Bruxelas, todos estarão a fazer de conta e a prepararem-se para um valente "chumbo" em Finanças Públicas. Para além do debate constitucional aqui afanosamente em curso (já o deveria ter sido antes), esta verdadeira prestidigitação orçamental terá certamente de ser denunciada perto do Petit Sablon, se é que as rendas bruxelenses ainda servem para alguma coisa, a urofluxometria do Maneken pis ainda não revelou hipertrofia prostática e o lema (ou o drama) europeu, ultrapassando Comissão e Conselho, ainda não chegou ao "L'État mit uns".
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Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

Entre 640 A.C. e talvez 600 A.C., em Atenas, Tucidides dixit...

 " Os fortes fazem o que têm poder para fazer; os fracos aceitam o que têm de aceitar"

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Da lura ao escalracho


A prenda ideal para o Natal, este.
A prenda ideal para o natal, d'Estes.

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

Os cartões da mala

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Emigrantes, Santa Apolónia, 1960 [?].
Eduardo Gageiro, Lisboa no Cais da Memória...


com vénia a "Bic Laranja" 
pela postagem de 1 de Agosto de 2009

Subscrevo as palavras de Manuel Alegre,  em palavras muito claras e objectivas.
Dos outros, as palavras ditas claras e objectivas [1], ouvi e não pasmei.
Por mim, não estariam lá; por outros [2] estão.

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[1] Deve ser gralha, engano ou presunção.
[2] Incluindo muitos que de Esquerda se arrogavam ser. E para quem invoque a diferença de tempos e condições, cabe perguntar se se inovou e preparou a Pátria para recomendar a mesma sangria em diferentes tempos e condições. Inviabilidade de quem?

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Festas felizes, enquanto existem


Da minha mesa de trabalho, são os votos que se dirijo a todos os que pacientemente acompanham este blogue.

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Está na memória familiar a história de uma velha parente que tínhamos em Braga. Monárquica que era e de cepa rija, vinha sofrendo silenciosa desde 1910 as agruras que a República lhe trouxera. Acompanhava-a uma velha empregada que até à morte lhe chamaria "Menina" e que lhe vinha contar as desditas políticas e sociais que dia a dia encontrava na rua, na feira, no caminho do mercado. E a velha Senhora ouvia e só sabia dizer àquele volver das coisas que não era o que tinha como fé: "Deus super omnia! Deus super omnia"!. E eis que, atravessada a guerra e a aventura sidonista, chega a Monarquia do Norte - e a Maria que saíra normalmente com as duas ceiras para a sua habitual rotina, recebe a noticia, corre a casa, galga como pode as escadas e grita em desvairo: "Menina! Menina! Deus supranou! Deus supranou!" . E eu, que não sou monárquico mas sou Português e Europeu, olho para este País e para esta Europa que está novamente a ser raptada entre os cornos de touro dos "mercados" e da inépcia dos seus desmanteladores e espero bem que, num sentido idêntico mas com objectivo diverso, possamos dizer a Deus que se digne pelo menos "supranar".
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

E por cá, todos bem?


Da escritora brasileira Urda Alice Klueger recebo um texto muito interessante e oportuno, assinado pela jornalista Raquel Moysés, que me leva a formular a pergunta acima. E, por isso, o texto e a imagem anunciadora, com a devida vénia e agradecimento à autora e a quem m'o transmitiu e máilo meu interrogativo "e por cá, todos bem?", aqui ficam todinhos, no exacto dia da apresentação da anunciada obra:

Crime de imprensa, um retrato da mídia brasileira murdoquizada
Autores de Honoráveis Bandidos lançam novo livro em Florianópolis

Por Raquel Moysés - jornalista

“No aniversário do maldito ai-5 venha celebrar a bendita liberdade de expressão. A celebração vai ser na Barca dos Livros, às 20 horas, em frente aos trapiches  da Lagoa da Conceição, Florianópolis. O dia é  13 de dezembro do ano da graça de 2011, 189º da independência e   33º do fim do a-i 5.”

O convite é não usual. O livro também. E promete contar, nas suas 140 páginas,  de tudo, menos repetir a farsa   que se reproduziu, de norte a sul do Brasil, nas manchetes, títulos e conteúdos da imprensa nacional, sobre o cenário das eleições presidenciais de 2010. E é porque revelam pequenos e grandes golpes dos meios de comunicação em Crime de Imprensa – Um retrato da mídia brasileira murdoquizada, que os autores Mylton Severiano e Palmério Dória avisam:  Os que comparecerem à noite de autógrafos vão conhecer um livro sobre  o qual não ninguém vai ler uma só linha,  ouvir um só segundo de comentários nas rádios e tevês dos ‘Grandes Irmãos’.

É um livro – eles anunciam – para se  entender como o jornalismo das grandes corporações usa seu poder para tentar impor ao povo a verdade “deles”.  E se ao ler a expressão “murdoquizada alguém pensou no magnata  Rupert Murdoch, “que grampeia as pessoas e falseia os fatos em vários continentes, inclusive o nosso, você acertou,” esclarecem enfim.  

Mylton Severiano e Palmério Dória, jornalistas que passaram pela redação  de publicações que fizeram história no jornalismo brasileiro,  já são  autores de uma  façanha editorial.  Outro livro que publicaram em coautoria,  Honoráveis Bandidos  - Um retrato do Brasil na era Sarney (Geração Editorial, 2009),  mesmo sem emplacar qualquer  resenha nos grandes jornais, despontava,   no ano de sua publicação, na lista dos mais vendidos, naqueles mesmos meios de comunicação  que se negavam a falar da obra. No lançamento, na capital do Maranhão, em novembro daquele ano, sobrou pancadaria, como denunciaram os autores em carta à Federação Nacional dos Jornalistas e à Associação Brasileira de Imprensa. 

Na noite de autógrafos, em São Luís, os jornalistas tiveram que pedir proteção, e a expectativa de violência se confirmou quando um grupo se manifestou aos socos e berros, jogando bolinhas de papel molhado, ovos e até pedras  em direção à mesa em que  estavam os autores. Não adiantou: mais de mil pessoas compareceram ao lançamento no sindicato dos bancários e quinhentas saíram com o livro nas mãos.   Em 2009, Honoráveis Bandidos figurou no “ranking” da Veja e Folha de São Paulo como o terceiro livro de não-ficção mais vendido no Brasil.  Severiano lembra que foram  mais de 100 mil exemplares vendidos, em apenas três meses. 

Agora, com a nova obra escrita pela dupla, não vai sobrar pedra sobre pedra. Ou, como diz  Severiano,  em linguagem jornalística, “não vai ficar lauda sobre lauda”.  Crime de Imprensa – Um retrato da mídia brasileira murdoquizada (Plena Editorial) é um livro reportagem, em que os autores dão “nome aos bois”. Todos os personagens reais são citados nominalmente e aparecem, em ordem alfabética, no final do livro.  “As peças do quebra-cabeça estavam espalhadas. Nós pegamos os  cacos e os juntamos,  para criar um mosaico que serve para fazer entender o papel da mídia corporativa, que nós chamamos de   ‘Grandes Irmãos’. 

A história da bolinha de papel que atingiu a cabeça do então candidato à presidência José Serra inaugura a narrativa do livro, o primeiro a esmiuçar aspectos midiáticos das eleições presidenciais de 2010. No texto, os autores contam porque  o anônimo cidadão que atirou a bolinha, “exerceria, sobre os leitores brasileiros, que 11 dias depois escolheriam Dilma Rousseff a primeira presidente da República, mais influência do que toda a mídia reunida, do que as congregações religiosas conservadoras, do que as entidades de direita, do que o próprio papa”. 

Por causa do teor das denúncias, foi difícil conseguir quem publicasse o livro, como já ocorrera com Honoráveis bandidos.   Crime de imprensa já fora rejeitado por três editoras, e os autores até pensavam em uma edição digital, quando a Plena Editorial (SP) acabou assumindo a publicação da obra, que surpreende já na apresentação. O prefácio, os autores extraíram da obra Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto. Trata-se de uma conversa, entre dois amigos do personagem principal da obra, sobre a imprensa do século 20. O diálogo de preocupante realidade, como assinala o título do prefácio, começa assim: “- A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba Roxa ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores, e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão a sua atividade, se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno...”    

Severiano faz notar que os conglomerados  de comunicação, os ‘Grandes Irmãos’,  usam  seus veículos de imprensa para servir aos seus interesses de classe  e aos seus negócios. Na capa do livro, os autores citam  Mino Carta,  diretor de Carta Capital, que afirma: “- Na maioria dos casos a mídia é ponta-de-lança para grandes negócios”. 

Para o autor, ainda vivemos a herança maldita da ditadura militar. “FHC é só uma das consequências.   Foi a ditadura que tirou a filosofia e a música do currículo escolar. Os ditadores vieram para ‘burrificar’ o país. E,  para agravar isso, os estudantes são bombardeados dia e noite pela mídia.” Para exemplificar o que diz, ele conta: “Outro dia, viajando para Pitanga, no Paraná, parei de manhãzinha em um bar para tomar café. O que se via na tevê era um programa policial de baixíssimo nível, um terror de sangue e violência.  Depois, lá pelas dez da manhã, vêm os programas infantis. Crianças, ainda com chupeta na boca, ficam vendo aquele horror. Nem precisa olhar, basta ouvir o áudio para entender o que elas estão assistindo..É só pancada, berro, personagem que grita, com aquela voz horrenda: - Você não me vencerá...!  O horário da tarde,  então, é só besteira.  E toda a programação, o tempo todo, servindo para a venda de produtos, o merchandising mais descarado...E quando o governo fala de discutir um marco regulatório para a comunicação,  os ‘Grandes Irmãos’  e os ‘Irmãos Menores’ começam a gritar: Censura!”

No jornalismo dos ‘Grandes Irmãos’, lembra Severiano, “não há o outro lado, o que já é uma farsa, pois um acontecimento pode ter 200 mil lados...” E prossegue: “O que eles querem, é a mamata. No governo Lula,  até houve alguma democratização na propaganda estatal, que foi  um pouco melhor dividida, mas isso é uma gota no oceano.”   Os ‘Grandes  Irmãos’ tentam barrar os avanços sociais, se possível dar marcha à ré na roda da história, como tentaram em 1954 e conseguiram em 1964, avisam os autores na contracapa do livro. E Severiano acrescenta: - No império dos ‘Grandes Irmãos’ reina a barbárie , e eles querem dar o golpe midiático a qualquer hora.  

No final do livro, os autores fazem uma observação: - Aos leitores poderá parecer que os autores votaram em Dilma Rousseff. Assim é se lhes parece. Foi um voto bastante por exclusão: não havia ninguém melhor do que Dilma na lista dos candidatos em 2010 para governar. Não somos dilmistas, muito menos petistas. O mais adequado sufixo ‘ista’  que se pode aplicar aos autores se encontra na palavra ‘jornalista’” .   


Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

Da Fonte Santa às Devezas (como então se escrevia) - Adenda

Feito e descrito o sumário peregrinar de saudade por ruas de entre a Fonte Santa e as Devesas e procurando mais esclarecer o que foi visto, torna-se oportuno trazer - para benefício próprio e de a quem o assunto interesse - a notícia de duas excelentes referências existentes sobre o tema da azulejaria, da ornamentação cerâmica e das cerâmicas, incluindo certamente - e com justo desenvolvimento - as de Vila Nova de Gaia e, de entre estas, a Companhia Cerâmica das Devesas. Encontram-se ambas no portal do Doutor Francisco Queiroz 
chamando-se especial atenção para os artigos "Fábrica Cerâmica das Devesas" e "A Ornamentação Cerâmica na Arquitectura do Romantismo em Portugal" (este correspondente à Tese de Doutoramento em História da Arte da Doutora Ana Margarida Portela) e que podem ser acedidos, com adequada extensão, a partir desse endereço geral. 

Em complemento do primeiro artigo (e sendo de observar a advertência que o precede) é citada a seguinte publicação documentada e para cuja bibliografia também o portal remete:

  • PORTELA, Ana Margarida  e QUEIROZ, Francisco:  A Fábrica das Devesas e o Património Industrial Cerâmico de Vila Nova de Gaia, Famalicão, 2008 (separata de "Arqueologia Industrial", 4ª Série, Vol. IV, n.º 1-2), 47 páginas.

Igualmente vem expressa, no mencionado portal, a proposição "Para um Museu Nacional das Artes Industriais na antiga Fábrica de Cerâmica das Devesas" [1] - proposição essa que, a todos os títulos, se gostaria fosse recebida e praticada, mas que, pelo abandono e desmantelamento que se apreciou no local, se teme que fique dia após dia mais longe. [2]

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[1] Propositura que funciona como “link” e que, uma vez clicada, conduz precisamente ao primeiro dos referidos artigo
[2] Adverte-se no portal quanto a uma breve migração deste para outro domínio, com mais publicações disponíveis e outras novidades...que desde já interessadamente se aguardam.

Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

Em Vila Nova de Gaia: da Fonte Santa às Devezas (como então se escrevia) - Parte 3: O mapa dos sítios



“Pois isso de Gaia pode ser giro, mas nós não conhecemos os sítios”. Paguei o café ao amigo de longa data, como se tivesse perdido a aposta e no reconhecimento de quanto tinha razão. Abri o jornal, fiz rápida leitura das desgraças locais, nacionais, europeias e, voltando a Gaia (agora ao planeta a que chamamos Terra), azuladamente esferoidais. Manuel Augusto Pina, inteligentemente, põe na sua habitual coluna uma perspectiva interessante, ainda pouco referida: de como a existente “crise” tem dado uma faceta nova e muito palacianamente tranquila a um modelo atípico de golpe de estado, ao fazer com que governos democraticamente eleitos (e qualquer que tenha sido à nascença o seu posicionamento ideológico) acabem substituídos por governos tecnocráticos, que ninguém elegeu. Entramos na conversa por aí – e pela dimensão e motivações da repulsa ao referendo grego, vistas nas duas faces da moeda. Uma interessante associação de ideias levou a comentar um “caso do dia” muito local: num prédio em propriedade horizontal os proprietários do 1º e 2º direitos ignoraram a assembleia de condóminos e começaram, abusivamente, a falar pelo prédio e a dar instruções, que passavam por um despudorado assédio aos restantes vizinhos para que apoiassem as perspectivas e diligências que lhes eram próprias.  Uma questão de elevadores, dizia-se. E então o Florêncio, trazendo a “bica”, pôs a malta a coçar a moleirinha: "Eh, gente! Isso não é novo! Se o gajo do primeiro usar saias e se chamar Ângela e o do segundo - ambos do lado direito direitinho, notem bem!- se chamar Nicolau tendes aí a tenda europeia toda armada e o Zé Manel a caminho de ascensorista!" Eh, eh, eh! Risada geral (ainda pode haver risadas gerais, mas daqui a algum tempo já se não sabe, pois ou serão tributadas ou poderá haver razões de não mais as haver, o que é muito mais sério). Nova leitura semi-silenciosa de jornais, e sai outro ovo galado: “Vocês já pensaram como é que, numa comoção não democrática, o Facebook e essas invenções de redes sociais se podem tornar verdadeiras armadilhas?” A mesa, então, dividiu-se sobre as vantagens e inconvenientes da diluição das privacidades na “net” e no valor das relações nelas anunciadas (e até fotografadas) se postas ao serviço de “inteligências” perversas. Alguém mandou vir um pastel de nata: oitenta cêntimos. “Eh pá, lá vou eu gastar cento e sessenta paus para comer um pastel de nata! Com cento e oitenta escudos no JN, que é o mais barato, estamos mas é feitos de todo”. Dobrei o jornal e, aproveitando a entreaberta com algum sol, preparei-me para me pôr a milhas. À saída disse: “Pois se querem o guia de Gaia, daquela zona de Gaia, terão um mapa. Visitem o blog logo, que até dá para eu me animar com mais  presenças registadas no contador de visitas.  Bom dia e bom almoço, k’ísto é mesmo segunda-feira!”.

Entre gente séria, que é o caso, pacta sunt servanda (mesmo que em termos de oferta unilateral) – ipurisso aí ides ter o mapa. Mas antes de vo-lo dar, fastidiar-vos-ei (hoje é mesmo segunda-feira, vê-se!) com umas palavrinhas explicativas:

a)     Ao começar, na postagem de 4 do corrente, por trazer aqui algumas fotografias (três, aliás) sobre o desmantelamento do que foi uma das representativas cerâmicas nacionais – a Companhia Cerãmica das Devezas (como então se escrevia) -. E de outras instalações na área  não pensava mais que afinfar uma renovada catilinária no lombo daqueles que contribuíram durante decénios (eu escrevi DURANTE DECÉNIOS) para diminuir a Indústria, para fechar unidades sem as substituir em “upgrading” e assim contribuíram com a sua parte para o generalizado enrascanço em que, por esses motivos e outros, todos nos acabamos metendo e todos acabamos metidos. Foi o “não é preciso pensar nisso agora, que a Europa pensará por nós!”,“a minha política industrial é a ausência de uma política industrial”, o que é preciso é “grande comércio, pequena indústria!”, o “se você pensa que esse projecto tem interesse, porque é que outros não o terão proposto antes?” (frases todas datadas e autoradas, embora infelizmente algumas delas já órfãs). Passado ao blog  esse primeiro apontamento, que poderia chamar de parte 0 (Zero), comecei a escrever sobre outras coisas – dentro dos chamados “passos em volta”. Surgiram encontros e memórias. E alarmes. Escrevi sobre isso, até porque a descrição do que encontrei na zona da Fonte Santa às Devesas (em Gaia) é um reflexo do que poderia ser encontrado em muitos outros sítios deste País, mas aqui com o acicate  de ter sido onde vivi a minha meninice. Surgiu assim uma Parte 1, sobre património azulejar em perigo, e uma parte 2, sobre o que eu designei de “casas cerâmicas” – que é uma forma diferente de dizer o mesmo.


b)     Um acidente informático singular e grave (aliás é a segunda vez que me sucede em “Blogger”) “não carregou” e fez-me perder totalmente a Parte 2 já concluída e ter de a reescrever de princípio, o que mortifica qualquer mortal. Confirmando um receio que me persegue desde o tempo do “Mirc” e que é a fragilidade e efemeridade de contributos com certo interesse que, colocados na “net”, perdem oportunidade, entre perdidos & esquecidos, esta ocorrência incómoda levou-me a rever a minha orientação e a só publicar textos mais longos e "conteúdosos", mesmo que experimentais, a partir de  ficheiro. Dir-me-ão que os ficheiros são ou podem ser igualmente inseguros, mas a verdade é que não são a mesma coisa, em termos de classificação e manuseamento. Tornam-se peças soltas, transmissíveis em separado e classificáveis e "se não entram" permitem novamente tentar e retentar sem o ploff! de se sentir nu em frente ao écran – e há nisto uma certa diferença. Idêntica preocupação levou a que, nos ficheiros que reproduzem as postagens de 4 e 10 de Novembro, e de forma diferente do que consta no blog, as imagens surjam numeradas e referenciadas aos ficheiros fotográficos originais.

c)     Um terceiro ponto diz já respeito à elaboração do mapa, Com o Norte apontado, grosso modo, para o topo da página, e retirando a parte que interessa de um outro mapa da cidade de Vila Nova de Gaia (Michelin?) localizaram-se, de A a O, os sítios representados e/ou mencionados nas postagens dos dias 4, 10 (Parte 1) e 12 (Parte 2) do corrente mês de Novembro de 2011, a que se juntaram dois pontos de localização X1 e X2 com coordenadas geográficas recolhidas no Google Earth.

Segue-se portanto “o mapa dos sítios”,  acompanhado da respectiva legenda:

Mapa Fonte Santa / Devesas - Fregª de Santa Marinha - V.N. de Gaia



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Sábado, 12 de Novembro de 2011

Em Vila Nova de Gaia: da Fonte Santa às Devezas (como então se escrevia) - Parte 2: As "casas cerâmicas"


I. 
 Com pouco tempo mas muita chuva decidi orientar os meus passos na redescoberta de algo que, pela sua apresentação singular e austera, olhei na minha meninice com algum respeito, muita curiosidade e uma parcela de temor e que sempre para mim mesmo fui chamando como “as casas cerâmicas das Devesas”. Designo assim um conjunto de edificações que, ou influenciadas pela proximidade da Fábrica e a disponibilidade cerca dos seus produtos ou mesmo pela influência desta na sua construção, evidenciavam de forma expressiva a incorporação de elementos cerâmicos na sua arquitectura. – desde o revestimento a mosaico das fachada até à concepção fantasiosa (e amouriscada) de portas e janelas, com introdução de elementos decorativos nas fachadas e telhados. Servindo propósitos habitacionais, sociais ou funcionais, tinham também – como se verá - desenvolvimentos diferentes de caso para caso, mas sempre sem prejuízo de um “denominador comum” que permitia distingui-las. Encontrei algumas velhas conhecidas, nesse meu excurso. Outras ou ficaram fora do itinerário escolhido, necessariamente breve, ou terão mesmo já desaparecido, absorvidas pelo intensivo processo de invasão urbana que modificou arruamentos, abriu outros, levando à frente os corredores de ruralidade que, nos anos 40, ainda separavam “a vila” da área industrial-ferroviária das Devesas [1]. Por essas razões o que vi poderá não fazer um levantamento completo desta espécie, em manifesto risco de extinção. Mas fica certamente a notícia (e, para mim, mais que isso). Se é verdade que o fenómeno não é singular  e que outros centros cerâmicos poderão ter induzido exercícios arquitectónicos próximos, o exemplo das Devesas, na zona circundante da “homónima” Cerâmica, impunha-se-me para o trazer aqui.

II.
Logo ao deixar o vale da Fonte Santa, prosseguindo para poente a descida da Rua Conselheiro Veloso da Cruz , nos nºs 318 a 326, fazendo esquina com a rua Almeida da Costa surge o primeiro exemplo. É uma ampla edificação de dois pisos (rés-do-chão e primeiro andar) que seguidamente se mostra (figs 1 e 2), não deixando de se notar, na fig. 1, a “presença” – afastada mas dominadora – da grande chaminé de tijolo que (ainda) marca o quarteirão. As figs. 3  mostra  pormenores das janelas do rés do chão e primeiro andar: 
Fig. 1 [DSCF3347]
Fig. 2 [DSCF3349]
Fig.3 [DSCF3348]
III.
 De concepção mais imponente é o edifício construído para albergar instituições assistenciais para a primeira idade e a velhice promovidas sob as designações “Creche Emilia de Jesus Costa” (hoje “Creche e Jardim de Infância D.Emília de Jesus Costa”) e “Asylo António Almeida da Costa” (hoje “Lar António Almeida Costa”) e que prosseguem activamente a sua missão no elenco dos equipamentos sociais da Misericórdia de Gaia [2]. Hoje com remodelações, aumentos e ampliação de instalações, o edifício é o único que no estilo sobrevive do lado nascente do 1º troço (norte-sul) da rua Almeida da Costa, correspondendo aos números de porta 151 a 153 (figª.4) No corpo central da fachada os beneméritos patrocinadores estão ambos representados de perfil em medalhão (figª 5) e dois significativos relevos, que evocam a infância e a velhice a que tais obras foram destinadas, ocupam as respectivas abas (figªs 6 e 7). O edifício é encimado por uma reprodução da obra “A Caridade”, do escultor António Teixeira Lopes (1899). A figªs 8 mostra o pormenor das duas portas gémeas [3].
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Fig.4 [DSCF3354]

Fig,5 [DSCF3356]

Fig.6 [DSCF2436]

Fig.7 [DSCF3425]


Fig.8 [DSCF3424]

IV.
A rua Almeida da Costa, junto ao edifício descrito, “acotovela” para poente, num segundo troço que  terminará ao entroncar numa outra rua Norte-Sul, a rua Mouzinho de Albuquerque, que me permiritá regressar à rua Conselheiro Veloso da Cruz. . Mas é ainda neste segundo troço da rua de Almeida da Costa que se abre um portão com arco, de arranjo mais recente (nº191; Figª 9),
Fig.9 [DSCF3423]
frente ao qual,  com maior sobriedade de incorporação cerâmica, se encontram as três moradias  dos  nºs 152, 154 e 158 (Figª 10), que se podem incluir no mencionado estilo.


Fig.10 [DSCF3421]

V.
Voltando agora para Norte e descendo a rua de Mouzinho de Albuquerque [4], depara-se-me um “correnteza” de moradias térreas e idênticas, do nº 153 ao nº 59,  em que a componente cerâmica está presente nos 6 diferentes revestimentos a azulejo que apresentam, como se igualmente constituíssem um mostruário da variedade da oferta fabril, neste particular. Destas casas, o azulejar da primeira (Figª 11) apresenta diferença das restantes, como se verá, ficando por esclarecer se essa diferença veio de origem ou resultou de modificação posterior. A inclusão de uma coluna de ferro fundido na separação de portas geminadas, já que cada revestimento abrange 3 portas, uma isolada e duas geminadas (Figª 12) [5] é ainda uma característica de época. Por dificuldades diversas (chuva, trânsito, estacionamento, rua estreira) não se fotografou casa a casa, registando-se apenas, para além da pormenorização da primeira casa (nº de porta mais alto) os 5 outros revestimentos do conjunto (Figs 13, 14, 15, 16 e 17).:

Fig.11 [DSCF3429]
Fig.12 [DSCF3418]
Fig.13 [DSCF3417]
Fig.14 [DSCF3416]
Fig.15 [DSCF3433]
Fig.16 [DSCF3434]
Fig.17 [DSCF3435]

VI.
O regresso à rua  Conselheiro Veloso da Cruz levar-me-ia à última casa desta visita: o número 149, do lado do portão da Companhia Cerâmica e pouco depois deste, na esquina com a rua de Alexandre Braga, quem vai para a Estação de CF. Nesse edifício, a julgar pela publicidade nas janelas, está hoje instalada uma actividade educativa. Mantem-se o estilo, com alguns pormenores a reparar, como a realização das janelas e a ornamentação cerâmica dos espigões no telhado. Vd. Fotos 18 a  21.

Fig.18 [DSCF3382]
Fig.19 [DSCF3387]

Fig.20 [DSCF3386]

Fig.21 [DSCF3385]
VII.
A fechar:
Antes de sair para o Sul – e relendo em pensamento o final d’ “A Montanha Mágica” – voltei a um dos locais em que estas três postagens tiveram início: a chaminé da Companhia Cerâmica das Devezas. Com o céu já mais aberto esperei que uma núvem passasse. Fotografei-a quando passou, como se os fornos pudessem ressuscitar ao não sei quantésimo dia e a indústria renascesse com isso nesta terra.

Fig.22 [DSCF3439]

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 [1]  Da Rua Conselheiro Veloso da Cruz ou melhor, da linha de caminho de ferro (grosso modo paralela àquela), em descida íngreme até à margem do Douro, a Norte,  predominam  ( tipologicamente distintas quanto ao edificado), as actividades afectas à etape final da saga do Vinho do Porto, com as suas caves e armazéns que marcavam a área do Entreposto. Diversas actividades associadas se desenvolveram, como os estabelecimentos de tanoaria que cresceram em diversos locais de Vila Nova de Gaia, nomeadamente no extremo Norte da Rua da Fonte Santa.
 [2] A Misericórdia de Gaia, não tendo a antiguidade de muitas Misericórdias, tem no entanto uma história muito interessante e uma obra a todos os títulos relevante num concelho extenso, exigente e diversificado. O exemplo destes benfeitores e de outros que se envolveram na sua constituição, funcionamento e dotação patrimonial que, no seu início, adoptou uma denominação simples mas suficiente: “Misericórdia de Gaia”.
[3] Lamenta-se a má qualidade destas e de outras fotografias, motivada pelas más condições atmosféricas. Há quem diga que isto é uma habitual e ardilosa escapatória para a imperícia do bloguista e talvez tenha razão. Uma alternativa muito em uso seria a de dizer que, também aqui, a culpa foi do Sócrates (o filósofo grego, claro).
[4] Com algum desgosto abandonei aqui a extensão da caminhada até ao “castelinho” que já se lobrigava relativamente perto, a Sul, por entre a chuva e o nevoeiro. Este “castelinho” era um modelo de “palacete” (denominação que para alguns pode parecer pretensiosa mas que, no Norte, era usada para designar uma casa isolada e com um relativo aparato em que vivia normalmente uma família com certas posses, ligada geralmente à indústria ou aos “Brasis”, se destes com afortunado retorno  – ou seja um sucessor do solar para gosto burguês “fin-de-siécle” ou por aí. 

Fig.23 [DSCF3384]
Pois este “castelinho”, nos anos 40 e para quem o via da Fonte Santa, surgia ao cimo de uma colina-campo  que em declive suave descia dos já referidos altos da Barrosa, seara na primavera-verão, marchetada de pequenos bosques onde cantavam cucos (raras vezes depois disso ouvi tão perfeitos cucos canoros!), destacando-se da mancha urbano-industrial das Devesas. Visitei-o de calções curtos e uma coisa que nele me impressionou e que certamente já não existe, até porque já então estava a estragar-se, foi um lago, um pequeno lago, com uma ilha. O curioso é que a ilha era uma fortaleza cercada e atacantes e defensores eram rãs em faiança, cada uma aí para uns 15 cm de altura ou equivalente, por detrás de canhões e outros utensílios bélicos, baluartes e contrafortes tudo também em cerâmica. Havia rãs generais e rãs soldados, rãs vivas e rãs mortas como naqueles soldadinhos de chumbo “made in Germany” que relembravam a guerra de 70 e em que feridos e mortos eram sempre zuavos franceses e “jamais” prussianos do “Gott mit uns”. Alguns motivos da fachada e do telhado e o estilo das portas e janelas, permitiriam colocar o “castelinho” entre as “casas cerâmicas”(p.ex. o torreão tinha ameias, que já não tem!) e levantam outras questões:  Seriam fabricos ou inspirações provenientes da vizinha Companhia Cerâmica? Ou de outras? Ainda haverá disso, rãs de faiança em manobras de assédio incluídas? Ou os assédios já são outros? O “castelinho”, perguntando  memórias, veio porém fazer prova daquilo que já se disse i.e. do quão incompleto foi este mais-passeio-que levantamento. E se se passeasse até ao Fojo, até à outra chaminé alta que (ainda) está visível para o lado de Coimbrões, ou para outras muitas ainda, o que se poderia encontrar?
[5] O que levanta dúvidas quanto ao número de fogos  nesta “fileira” de casa. A questão ainda pode associar-se (ou não) ao aproveitamento dos forros de algumas, que não de outras. No entanto esclarecer isto não era propósito deste meu peregrinar.


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